sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Repetição


Ela arrumava suas roupas na mala de forma cuidadosa, as dobrando lentamente... Todos os seus passos eram previamente planejados.

Fechou com calma a mala, olhando pela última vez seu quarto, viu a foto de seu marido sobre a cômoda... Tudo parecia perfeito.

Saiu do quarto e percorreu a casa pela última vez, olhando e memorizando cada detalhe, queria mais tarde lembrar-se de tudo.

Abriu a porta e saiu em direção à rua, deveria ser rápida, pois seu marido poderia voltar mais cedo naquele dia. Entrou no carro e deu partida, saindo olhou pelo retrovisor uma última vez.

Andou algumas quadras pensando em tudo que estava deixando para trás, as brigas, as agressões, não só psicológicas, mas físicas também. Finalmente ela teria uma nova vida, nova chance.

Ficou dirigindo por cerca de meia hora, estacionou o carro e saiu, olhando novamente para sua casa. Ela tinha voltado como fazia todos os dias. Pegou sua mala, entrou em casa e começou a desfazê-la, colocando suas roupas novamente no armário.

Já fazia algumas semanas que este mesmo ritual estava sendo feito, todos os dias ela acreditava que seria diferente, que teria finalmente coragem em abandonar todo seu sofrimento, mas este dia nunca chegava.

Esperando na sala, a mulher ouviu o barulho que já era tão conhecido aos seus ouvidos. Em estado de alarme ela respirou fundo, e rezou para que a dor não fosse tão forte naquela noite, e que no dia seguinte ela finalmente encontrasse a coragem...
 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Prisão


Como uma prisão...
Não consegue gritar, nem se mover.
Sua força está a cada dia sendo dominada pelo medo.

Como uma prisão...
Tenta se libertar de tudo que a envolve,
Seus temores, suas ilusões, suas esperanças.

Como uma prisão...
A loucura se tornou a única forma de libertação.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Solidão


Ele já havia se acostumado com a solidão por muito tempo, sendo que a aproximação de outras pessoas em alguns momentos se tornara um sofrimento. Não sabia como agir nem o que falar.

Todo o dia gastava algumas horas em frente ao espelho treinando seu comportamento, modos e ações. Tudo era cuidadosamente calculado. Esta ação já se tornara uma doença, mas também era sua única segurança.

Quando saia de casa, sabia com quem iria falar e sobre o que, sua rotina não poderia ser alterada, e um desespero se apossava de seu corpo, quando este pensamento se aproximava.

Naquele dia sentado em frente ao mar, pensava nas coisas que poderia estar perdendo com este comportamento tão presente durante toda sua vida. Não agüentou mais a realidade e chorou, olhando para o lado viu uma mulher sorrindo, vestida de branco. Era estranho, pois ele não a tinha visto quando chegou somente a solidão era sua companhia...

Em seguida uma criança veio correndo até a mulher, uma menina aparentando seis anos ou menos, ele não sabia. Ela se jogou nos braços da mulher e depois saiu correndo pela praia, gritando e rindo, parecia que não havia preocupações em sua mente, tudo era perfeito...

Em seguida a criança voltou ao colo da mulher, naquele momento o homem já tinha certeza que eram mãe e filha, pelo menos a sua relação transparecia certa cumplicidade. As duas se levantaram e passaram pelo homem, desaparecendo diante de seus olhos.

Ele não acreditava no que via, ou pensava ver. Como era possível duas pessoas estarem ao seu lado e em seguida sumirem como se nunca tivessem existido?

Pensando racionalmente como todos os outros dias de sua vida, percebeu que não estava completamente sozinho. Possuía a solidão como melhor amiga acompanhada da loucura...



 
 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Sentido da Vida


O homem sentava-se todos os dias no mesmo banco da praça. Isso já se tornara um costume. Todos os dias em busca de uma resposta... O porquê de ele estar vivo, qual era o sentido naquilo... Nem ele mais sabia...

Todos os dias percorria com o olhar as pessoas passando, em busca de um sinal, algo que o fizesse entender o verdadeiro sentido da vida. Sua cabeça doía há dias devido a esta dúvida, uma dúvida que o atormentava cada vez que ele estava naquele lugar.

Mas naquele dia em especial talvez tudo fosse diferente, algo novo poderia acontecer... Começou quando um vira-lata passou diante de seus olhos, correndo e latindo. No inicio o homem não deu nenhuma importância, era um cachorro como tantos outros que apareciam no local.

Depois de alguns minutos o mesmo cachorro passou novamente latindo, o que prendeu a atenção do homem por mais alguns minutos. Neste momento ele decidiu observá-lo um pouco mais.

O animal percorria toda a praça, latindo para as pessoas que passavam, mas não de forma ameaçadora, e sim convidativa, chamando suas atenções. Por um momento o homem riu, esquecendo de todas as suas dúvidas e medos.

O animal olhou por um momento o homem, e correu em sua direção, sentando ao seu lado. Não se passou nem um minuto o cão pegou um graveto e começou a desafiar o homem, convidando-o para um jogo, que para o cão seria mais interessante do que qualquer outra coisa.

O homem pegou o graveto da boca do cão, e com toda a sua força jogou o mais longe possível, direto em um chafariz. Neste momento ele teve certeza que a brincadeira havia parado, mas o animal não tinha a mesma opinião.

Correndo até a água, o cão pegou o graveto, voltou e deitou-se ao lado do homem onde dormiu profundamente, sem arrependimentos, medos ou ilusões, apenas aproveitando o momento...

Neste instante o homem sorriu, pois havia finalmente descoberto o verdadeiro sentido da vida...